
Aqui vai mais uma
opção interessante para os que gostam dos valvulados. Trata-se de um amplificador estéreo, composto de duas válvulas em cada
canal, saída classe A e com sensibilidade adequada para ser acionado por praticamente qualquer tipo de player que tenha saída
auxiliar ou para fone de ouvido. Uso este equipamento no quarto, as vezes ligado ao cd player e as vezes ligado ao computador.
Com cerca de 8 Watts
de saída por canal, ligado a um par de caixas acústicas de rendimento mediano “bateu” fácil o micro system de
muito mais potência, que acabou sendo desativado. Sem falar na qualidade de som, pois as válvulas conseguem trabalhar com
muito melhor desembaraço as complexas nuances existentes na música, o que traz uma transparência e um detalhamento impressionante.
É muito prazeroso ouvir os discos no aparelho e descobrir instrumentos e detalhes que antes passavam despercebidos...
Cada canal conta
com uma 5881 na saída e uma 6BQ7 no estágio de pré amplificação. A 5881 é uma versão robusta da 6L6, capaz de uma dissipação
de placa de 30 Watts, embora não a estejamos utilizando a todo vapor neste projeto.
Vamos fazer uma rápida
análise da arquitetura do aparelho para ver como foi concebido. Não se trata de fazer o projeto aqui mas sim vista rápida
nos principais parâmetros que nortearam as escolhas feitas.
O ESTÁGIO DE SAÍDA
A escolha da válvula
de saída foi função do transformador de saída que eu tinha disponível. Eram duas unidades de 5K Ohms de impedância primária,
com secundário de 8 Ohms e 10 Watts de power handling.
Na prática o rendimento
típico de um amplificador classe A, usando um bom trafo de saída, é de cerca de 40%. Isto diz que se queremos utilizar os
10W que o trafo pode suportar precisamos de uma válvula que dissipe na placa
Pd = Po/η =
10/0,4 = 25W
Algumas opções típicas
para esta dissipação são a EL34, 6L6, 5881, 7027A, etc. Optei pela 5881 por ser um tipo robusto e o preço, da made in China,
interessante.
Um ponto de trabalho
que exige 5K de carga (retirado das curvas de placa) é Vp = 330V, Vg2 = 250V e Ip = 58 mA. Nesta condição a válvula dissipa
Pd = Vp x Ip = 330 x 58x10‾³ = 19W
Por isso dissemos
que ela não está sendo utilizada no limite.
Importante ressaltar
que, quando se diz que a tensão de placa é de 330V, esta é a tensão medida entre PLACA E CATODO. A fonte deve fornecer uma
tensão de alimentação acima desta pois existe a queda no primário do trafo de saída e no resistor de catodo. No meu caso foi
necessário um +B de 360V para que, na válvula, estejam os 330V.
Podemos esperar uma
potência de saída na carga (alto falante) de aprox.
Po = Pd x η = 19 x 0,4 = 7,6 Watts
É um número aproximado
porque não foi medida a eficiência do transformador. Isto irá aparecer no final, quando o aparelho for ensaiado na bancada.
Esta condição de
trabalho pede uma polarização de grade de -14V (dado também retirado das curvas de placa).
Foi adotado neste
projeto o sistema de polarização automática, com resistor de catodo. O valor do resistor é de
Rk = Vg1 / (Ip +
Ig2)
Rk = 14 /((58 + 5)
x 10‾³) = 220 Ohms
Ig2 é a corrente de grade auxiliar neste ponto de trabalho.
O ESTÁGIO DE ENTRADA
Para as considerações
sobre o estágio de entrada vamos adotar alguns parâmetros:
Sensibilidade desejada
= alcançar plena potência de saída com um sinal de entrada de 0,2 V
Impedância de entrada
= da ordem de 1M Ohms. Isto para não carregar qualquer tipo de fonte que venhamos utilizar para excitar o amplificador.
Bom, com estes dados
já é possível determinar a amplificação necessária do pré (usamos o termo “amplificação” para relação de tensões.
O termo “ganho” refere-se a relação de potências).
A amplificação necessária
para excitação máxima é
Av = (Vg1/√2) / Vin
Av = (14/1,41) /
0,2 = 49x (ou 34dB)
Na prática vamos
utilizar um valor acima disso porque vamos ter um elo de realimentação negativa de pelo menos 15dB. Vamos portanto precisar
de uma amplificação total de no mínimo 49dB ou 280x.
Dizemos no mínimo,
pois se dispusermos de um valor de amplificação maior que este podemos utilizar a diferença na realimentação ou no aumento
da sensibilidade de entrada. A escolha é do projetista.
Esta amplificação
é uma exigência imposta ao estágio de entrada. Há uma enormidade de possibilidades para consegui-lo e assim sendo, optei pela
mais prática, ou seja, a que permitiu utilizar alguma válvula que tenho.
Fuçando na sucata
achei algumas 6BQ7 dispostas a trabalhar. Resta ver se elas podem atender a exigência acima.
A 6BQ7 é um duplo
triodo com mü da ordem de 30 (quando usada com corrente de placa muito baixa). Esta válvula foi concebida para trabalho em
VHF, como front end dos antigos receptores de TV, numa configuração conhecida como cascode. Ela também pode ser utilizada
em amplificadores RC para áudio, que é o nosso caso.
A seqüência lógica
seria traçar varias retas de carga e medir a simetria de cada uma para determinar a de melhor linearidade. Depois viria o
cálculo DC, etc.
Mas, para facilitar
este trabalho, o(s) fabricante(s) das válvulas passíveis de uso em áudio, dentre elas
a nossa 6BQ7, já fizeram este trabalho e o incluíram nos manuais na forma de quadros com várias opções de alimentação
e carga. Vamos usar esta facilidade.
No apêndice do manual
aparece este quadro que copio abaixo (parcialmente) para mostrar como funciona. Junto está o circuito recomendado.

O quadro original
é extenso, pois fornece valores para vários pontos de trabalho. Escolhi este, com tensão de alimentação (Ebb) de 180V uma
vez que esta tensão pode ser obtida facilmente já que vamos ter os 330V para as 5881.
Este quadro diz o
seguinte: com alimentação de 180V, resistor de placa (Rp) de 100K, resistor de catodo (Rk) de 1630 Ohms (1K5 na prática),
vamos obter uma amplificação (Av) de 24X.
Já que a válvula
é dupla, dois estágios idênticos em cascata nos darão
Av = 24² = 576x ou 55dB, portanto acima do que precisamos!
O valor Eo que está
no quadro representa a tensão máxima que esta configuração fornece ao estágio seguinte. Com os valores escolhidos esta tensão
é de 32 Volts, portanto mais que o dobro dos 14 Volts que precisamos para excitar a válvula de saída.
Isto significa que
a 6BQ7 é uma opção viável.
A FONTE DE ALIMENTAÇÃO
Resta agora dar uma
espiada na fonte, que é quem vai empurrar esta coisa toda.
Já vimos que cada
válvula de saída vai dissipar 19W na placa e 250V x 5 mA = 1,25 W na grade auxiliar. Isto totaliza 20,25W.
O filamento consome
6,3V x 0,9A = 5,67W
A 6BQ7 trabalha com
180V e aprox 1mA de placa. Isto dá cerca de 0,2W por seção ou 0,4W total. Já o filamento consome 6,3V x 0,4A = 2,52W
Resumindo: cada canal
vai exigir da fonte
Ptot = 20,25W + 5,67W
+ 0,4W + 2,52W = 28,84W
Adicione a dissipação
do resistor de catodo (14V x 63mA = 0,882W) mais dissipação nos resistores de grade auxiliar, etc. Vamos arredondar para um
consumo de 35W por canal.
Dois canais, portanto,
70W.
Alias este é o ponto
fraco das válvulas. Veja este aparelho; para entregar cerca de 15W de potência útil, drena algo próximo de 70W! Elas apenas
sobrevivem (ao menos em alguns círculos elitistas) porque fazem um excelente trabalho no som.
Para que a fonte
não fique no gargalo, vamos dimensionar o transformador para 100 Watts.
100W exige um núcleo
de 12 cm² e uma relação
de 7 espiras por volt. De onde vem estes números é uma conversa
para outra hora.
Adotando uma eficiência
(prática) de 90% para o transformador de força, a potência no primário é de
Pp = 100/0,9 = 111W
Para rede de 127V
a corrente primária é de
Ip = 111/127 = 0,87A
(utilizei fio 23)
Então o enrolamento
primário deve ter 127 x 7 = 889 espiras de fio 23.
Bom, esta mesma ladainha
se repete para cada enrolamento. Fica maçante detalhar tudo... Maçante para quem lê e mais ainda para quem escreve.
O que foi dito até
aqui mostra o como a coisa se desenrola numa primeira avaliação, ou “pré-projeto”.
CONSTRUÇÃO
Vamos para a parte
prática.
O chassi é de alumínio
e segue a receita já mostrada em um texto anterior (http://diy-rbt2.tripod.com) onde uma forma de bolo, devidamente recortada e trabalhada, pode virar um bom chassi.
Como não havia espaço
suficiente para colocar as 6BQ7 na parte superior do chassi, elas foram para baixo. Foram montadas num pequeno subchassi e
este fixado na parte inferior do principal. Esta parte mecânica exige um pouco de paciência, principalmente se você dispõe,
como é o meu caso, apenas de ferramentas elementares.

A figura
mostra o chassi principal e o subchassi com as duas 6BQ7

Aqui
a montagem está tomando a forma final. O subchassi está fixado ao chassi principal com espaçadores para permitir a passagem
da fiação dos transformadores de saída sob ele

Detalhe
da construção do chassi dos duplo-triodos
DIAGRAMA ELÉTRICO
As figuras a seguir
mostram o esquemático da seção amplificadora. Foi desenhado apenas um canal, pois o outro é idêntico.

A parte em azul é
o subchassi. Os estágios de saída e a fonte de alimentação estão no chassi principal.
Valor dos componentes
C1 = .1µF - 400V
C2 = .1µF - 400V
C3 = 100µF - 25V
R1 = Potenciômetro
duplo 1MΏ
R2 = 22K –
1/4W
R3 = 1K5 –
1/4W (ver texto)
R4 = 100K –
1/4W
R5 = 1MΏ –
1/4W
R6 = 1K5 –
1/4W
R7 = 100K –
1/4W
R8 = 500K –
1/4W
R9 = ver texto
R10 = 220 Ohms -
5W
R9 é o resistor de
realimentação, que determina a amplificação global do aparelho. Quanto maior R9, mais sensível o aparelho fica, porem menos
realimentado, com conseqüente estreitamento da banda passante e aumento da distorção. No meu aparelho usei para R9 o valor
de 33K (1/4W)e com isso ele atingiu a sensibilidade que eu preciso.
Observar também que,
para DC, R9 está em paralelo com o resistor de catodo do primeiro triodo da 6BQ7 (R3), portanto ele interfere na polarização
daquela seção. O valor da associação deve ser de 1K5.
Para proceder às
ligações, abaixo estão as bases das válvulas:
Na figura abaixo
temos a fonte de alimentação. Ela é única para ambos os canais.

O circuito é um dobrador
de tensão que fornece, sob carga, em +B1 360V, em +B2 250V e em +B3 180V.
O transformador T
foi enrolado em casa e os dados são os seguintes:
Seção do núcleo =
12 cm²
Primário de 127V
= 890 espiras de fio 23
Secundário de alta
tensão = 990 espiras de fio 28
Secundário de 6,3V
= 50 espiras de fio 19
Valor dos componentes:
T = trafo de força
(ver texto)
D1 = 1N4007
D2 = 1N4007
C1 = 200µF / 400V
C2 = 200µF / 400V
C3 = 100µF / 400V
C4 = 100µF / 400V
R1 = 10K –
5W
R2 = 20K –
2W
Os valores de R1
e R2 dependem muito do transformador e devem ser experimentados para que dêem as tensões descritas acima em +B2 e +B3.
CONCLUSÃO:
O
desempenho do aparelho surpreende. Atualmente estamos acostumados a equipamentos de alta potência e falar em 8 Watts por canal
parece brincadeira. Esteja certo que não é.
Experimente-o.
Você irá se surpreender com o que pode fazer poucos Watts quando bem aproveitados e comandados por um circuito e componentes
capazes de destrinchar os detalhes da trama musical. Os graves ocupam seu lugar, a voz ganha uma presença impressionante e
o brilho dos agudos impactam. As mais delicadas nuances saltam, tornam-se nítidas... Suas músicas vão ganhar vida!
Aí vão algumas fotos

A montagem interna, feita pelo sistema ponto a ponto com o uso
de barra de terminais

Aí está
o amplificador ligado ao Cd Player. Formam uma dupla imbatível
Escrito por Antonio R. Rabitti
Julho 2008
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